
No último ano, nós tivemos a oportunidade de observar um acontecimento interessante em nossa matilha, uma mudança drástica e diria que até inesperada no comportamento da Cleópatra. A Cléo sempre ocupou uma posição inferior aos outros dois pitbulls. Filha do Simba e da Madonna, ela nunca teve muitas chances, já que além de não ser uma líder nata, seus pais a dominaram desde que era um filhote e sempre fizeram isso sem nenhuma dificuldade, uma vez que ela parecia satisfeita com sua posição na matilha.
A Madonna é uma líder nata e apesar de docilidade e submissão absoluta a nós, disputou a liderança com o falecido Simbinha desde que colocou as patas em casa. Mesmo quando era bem jovem e o Simba já tinha um ano de idade, ela o desafiava constantemente em diversas situações e assim o fez por todo o tempo que conviveram juntos. Ela é tão dominante, que chega levantar uma das patas traseiras para urinar, como se fosse um macho.
O Simba era bem maior e mais forte fisicamente do que ela, mas não nasceu para ser um líder de matilha. Ele era sensível à pressão e demonstrava fraqueza em momentos que sua coragem era posta a prova. Sei que tenho parte de culpa nisso porque sempre exigi mais do que ele podia dar. Somente quando o aceitei como era, fui capaz de ajudá-lo a se tornar o grande cão que foi. Precisei fazer muitos exercícios visando aumentar sua coragem e sua autoconfiança desde filhote, para que ele perdesse suas fobias, se tornasse um cão destemido e ciente de sua força. Com pouca dificuldade, ele mantinha a liderança da matilha e os três viviam bem, já que a Cléo não se metia com os dois.
Ao trazer um cão para casa, não importa sua idade, raça, defeito genético ou problemas que possa ter, esteja consciente que você está assumindo uma responsabilidade e é seu dever proporcionar o bem para este cão. O cão está sendo acolhido por uma matilha e isso é muito importante e valorizado na vida deles.
Com a chegada da Magali e do Rodolfo a matilha aumentou e isso teve um efeito negativo sobre a Madonna. Acreditamos que sua necessidade de atenção a tornou mais agressiva nas disputas e qualquer motivo era suficiente para ela agredir outro membro da matilha. Fomos levados a separá-la dos demais, devido a essas brigas e agressões que passaram a acontecer com muita freqüência.
A Cléo sempre respeitou o Simba e a convivência entre os dois era perfeita. Como ela possuía uma posição abaixo na hierarquia, apesar da idade adulta, ela mantinha um comportamento de filhote, sempre querendo brincar quando tomava alguma bronca do Simba, minha ou da Michelle. Parecia um verdadeiro bebê, diante de qualquer problema que pudesse surgir e chorava para pedir algo que desejasse em diversas ocasiões. Ela sempre foi infantil e bobalhona.

Quando o Simba faleceu devido a um câncer, ela ficou nitidamente deprimida e durante semanas não apresentou nenhum sinal de alegria. Ficava deitada olhando para “o nada” e não respondia às nossas tentativas de alegrá-la. O tempo passou e ela começou a tentar brincar com o Rodolfo, que teve medo dela inicialmente tamanha a sua brutalidade nas brincadeiras, mas ele foi se soltando aos poucos e os dois começaram a se entender. O destino, porém, resolveu nos levar o Rodolfo pouco tempo depois, que foi picado por um filhote de cobra coral. Foi uma época difícil para todos nós, pessoas e cães da matilha.
O interessante é que a Cléo mudou completamente depois da morte do Simba, mas essa mudança não estava relacionada à falta que ela sentiu dele. Na verdade, ela assumiu a liderança da matilha, uma posição que a obrigou a se comportar de forma diferente. Ela se tornou dura com os outros cães, não brincava muito e se preocupava constantemente em controlar os demais. Parou de chorar quando queria comida ou entrar em casa, por exemplo. Aquele comportamento de filhote que ela apresentou nos últimos cinco anos, simplesmente sumiu. Até a expressão corporal e “focinhal” havia mudado. Ela parecia uma verdadeira matriarca agora, superior aos demais.

O Fizban é um líder nato e possui um alto grau de agressividade, características que nós buscamos na hora que o escolhemos e já imaginávamos que, mais cedo ou mais tarde, ele ocuparia a posição mais alta na matilha, abaixo somente de mim e da Michelle.
Há aproximadamente três meses, quando o Fizban completou um ano de idade, ele começou a testar a Cleópatra, coisa que só fazia com os outros cães de casa e conosco. A qualquer momento ele passará a dominá-la e assumir de vez a posição de líder entre os cães aqui de casa. O que mais nos chamou a atenção é que a Cléo está voltando a agir como um filhote. Voltou a brincar bastante, chorar para pedir algumas coisas e a ser o mesmo bebezão que estávamos acostumados. O Fizban é o ranzinza e o mal humorado agora, características do líder do pedaço.
É interessante perceber que a liderança não é uma necessidade para a Cléo e que ela parece preferir que outro cão seja o líder, mas mesmo assim, ela soube incorporar o papel diante de uma necessidade que o destino lhe apresentou. Ao passar essa fase importante, onde precisou assumir um papel de peso na matilha e agir da forma adequada, ela entrega sem luta, o seu trono a outro cão mais forte e agressivo.
Grande abraço,
Tomás Szpigel
Imagens: 1-Cléo; 2- Pandora, Magali, Rodolfo e Cléo; 3-Cléo e Fizban.
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